A Mãe, entre Natureza e Cultura

Canina é o bom filme que Amy Adams buscava há anos, mas derrapa nas mil e  uma explicações | Chippu
“Eu sou uma mulher. Eu sou animal. ”

A mulher que profere essa frase está passando por um momento delicado de sua vida. É mãe, cuida sozinha de seu filho pequeno, se vê limitada a alimentar e fazer dormir seu filhote. A rotina sem mais atrativos começa a enlouquecê-la. Um animal começa a despertar em seus pensamentos, uma cadela (no sentido literal) começa a rosnar, cavar buracos, cheirar. A natureza avança no interior dessa mulher desgostosa da sua situação em que vive. Sua trajetória nos ensinará muito sobre a maternidade, sobre as mulheres.

“Eu faço isso todos os dias. ”

Fazer o mesmo todos os dias. A rotina repetitiva. Após algum tempo a maioria de nós falantes mortais acaba por não mais suportar tal destino. A mãe acima, personagem do filme Canina, cujo marido viaja a trabalho a semana toda, vive esse dilema. E todos sabemos quanto uma criança pode demandar de sua mãe cuidadora!

Quando o marido retorna, nos finais de semana, acaba por também aumentar sobre ela as demandas. Cabem aqui todos os discursos sobre as injustiças e desigualdades na divisão social do trabalho por gêneros.

Mas não é sobre isso que escreverei aqui e sim sobre o que pode acontecer na subjetividade particular da mãe, protagonista do filme.

Se as redes de apoio, família, babá, vizinhos, amigos, são importantes para tornar mais leve o peso da vida e o peso de alguns eventos em particular, aqui temos uma mãe que não consegue aderência aos grupos, considera uma chatice as ocasiões de encontros sociais que reúnem outras mães crianças. Algo não vai bem!

Para piorar as coisas, o querido menino quer brincar até altas horas da noite, briga com o sono, impondo à mãe uma compulsória privação de sono, fato esse que sempre acarreta outros problemas.

Logo no surgimento dos primeiros sinais de alguma alteração ‘nervosa’, o marido aconselha que ela não se preocupe, que faça um cronograma das tarefas da casa. E fala: “A felicidade é uma escolha. ” Em outros cenários essa frase até pode fazer algum sentido, mas para essa mãe, a falta de escolha é a ordem do dia, dos dias. Ao escutar a frase ela deseja dar um tapa na cara dele, mas sorri e diz que vai tentar. 

Surgimento de pelos, interesse pelos dentes caninos, sensibilidade olfativa, tudo isso começa a preocupá-la. Um rosnar não demorou a aparecer. Até os cachorros da rua começaram a se aproximar dela, enquanto lia um artigo chamado ‘pessoas com sentidos de animais. ”

Amy Adams passa por maternidade peculiar na afiada... | VEJA

No passado, a mãe dessa mãe renunciou a uma carreira de cantora para cuidar dos filhos. Há uma repetição ocorrendo aqui, que avança de uma geração a outra. Lembranças da mãe começam a aparecer.

No espelho ela vê um rabo crescendo, o olfato cada vez mais apurado. A vida psíquica em ação, criando uma realidade substitutiva, alucinada em parte, criativa também.

À noite, escuta latidos no quintal. Ela levanta. Vários cachorros estão à sua porta. Eles a atacam. Sonho ou alucinação? Os signos da vida canina parecem estar lhe servindo para representar as angústias e outros afetos do seu mundo interno. Ao expectador começa uma suspeita séria que de ela está enlouquecendo.

Um livro faz com que ela descubra que mulheres de diferentes culturas fizeram coisas parecidas como os animais. 

Dispensa o garfo e come com a boca, no restaurante, acompanhado de um “au”. Vê tetinhas em seu corpo enquanto se olha no espelho. Compra bastante carne crua e esquece de comprar o leite para o filho. A vida canina está cada vez mais tomando sua vida. 

“Não quero mais nada precisando de mim ou me tocando. ” 

As demandas excessivas estão enlouquecendo essa mulher, que não vê outras formas de estar na vida nesse momento. Ela está de todo na função materna, no cuidado. Ela sente-se como uma mãe de algum bicho. A dedicação exclusiva e monotemática faz confluir toda sua “energia” psíquica para essa função, não existindo variantes pulsionais que a ”distraiam” e permitam outras satisfações. Lembro aqui dos inúmeros relatos de funcionários e funcionárias de indústrias que realizam o mesmo trabalho repetitivo o dia todo e a gama de patologias surgidas em decorrência dessa forma laboral.

Sexo com o marido já não a desperta mais, afinal, como manter o desejo em tal cenário?

Ao passo que lê livros de mitologia que comparam mulheres com animais, também recorda de hábitos estranhos de sua mãe quando ela era criança. Pergunta a si mesma o que teria feito a sua mãe com a raiva que sentia por ter deixado de realizar seus projetos. Teria ela se arrependido de ter sido mãe?

Ser mãe, esse ideal construído ao longo de milênios, tantas vezes transformado ao longo da história. Ser mãe, o desígnio de Deus. Ser mãe, a realização da natureza. Ser mãe, o ideal de completude. Ser mãe, a solução para as angústias do ser. Ser mãe, a realização de ser. Ser mãe, a submissão ao mundo dos homens. Ser mãe, o poder criador. Ser mãe…

E quantas o são mesmo não desejando ser. E quantas o são por medo de não ser. E quantas o são pelo receio de serem julgadas. E quantas o são pelo medo de se arrepender de não ter sido. E quantas o são por acreditar estarem certas todas as “verdades” sobre o ser mãe. 

Ao clube de leitura com mães e outras crianças ela não vai mais. Deixa de ser artista e diz que não vê mais sentido nisso. Ela está cada vez mais destruindo as dimensões simbólicas, as atividades simbólicas, humanas. Diz querer voltar-se apenas aos cuidados do filho. É nítido que o marido percebe algo estranho nestas falas da esposa, mas não tem a condição de fazer algo diferente.

É noite, ela se põe de quatro no quintal, transforma-se numa cadela, cava buraco. De volta à casa, o banho revela o barro, o marido presencia, agora ela é um animal. Fazem sexo. Ser outra ‘coisa’ a liberou. Pode canalizar sua raiva. Retorna serena, mulher, desejante. “Eu sou uma mulher. Eu sou animal. Eu sou nova e antiga também”, diz.

Amy Adams a tornar-se um cão. Já saiu o trailer do novo (e insano) filme da  atriz – PiT

Em Antropologia são muitos os estudiosos que mostram que em vários grupos étnicos a transformação de humanos em animais é uma linguagem que sustenta as práticas de vida, os rituais, a mitologia, a organização do parentesco. Nos mitos, por exemplo, são frequentes (quase uma lei) as transformações de humanos em animais e vice-versa, e, em todos, os simbolismos tentam dar conta do surgimento de um fenômeno, tentam resolver uma equação subjetiva difícil, tentam explicar o real, explicar uma origem.

Há grupos que consideram que se nasce humano e depois vai se tornando animal e não o contrário. Morrer seria tornar-se animal definitivamente e muitos são os exemplos disso, ‘virou pássaro’, sendo preservada sua memória, seus feitos. Tais transformações estão associadas, dentre outros significados, à cura, à libertação, à imortalidade, ao outro mundo, à permanência.

Bom para comer, bom para pensar.

Mas o que acima de tudo podemos afirmar é que os animais tornam possível transformar em linguagem (palavras e imagens, máscaras, fantasias, danças, sons…) afetos antes impossíveis de serem pensados. O antropólogo Claude Lévi-Straus afirmou que os animais não são bons para comer, mas são bons para pensar.

No filme podemos fazer uma escolha: se a mãe está enlouquecendo por se tornar um animal – a cadela – ou está recuperando sua sanidade ao possibilitar ao pensamento uma metáfora e aos afetos uma descarga.

Assumindo sua condição canina, a mãe se torna mais leve e convida o filho a brincar de ser cachorro. Ele adora, comem de quatro sem talheres, rolam na grama… Mas…logo ele está tomando água da privada. Ele levou a sério demais. Ela se dá conta que seu recurso à fantasia está afetando seu filho. Ele o repreende, mas a brincadeira continua e toda a casa vira uma animada brincadeira de cachorro.

Ela se vê como líder da matilha, os cães a seguem, a presenteiam com animais mortos, a convocam e a reverenciam. Tudo isso é o oposto do que ela vive, ela não manda em nada, obedece, se resigna, não tem valor o que ela faz. Já na condição de cadela, tem autonomia, sai, corre, lidera, apronta, é livre, corre pelas ruas. Ser cadela lhe permite ser.

10 cenas do filme 'Canina' que toda mãe vai se identificar

No carro a letra da música que ela escuta é sugestiva: “ouse ser idiota”. Afinal, ela está levando a sério a história de ser cadela ou sabe que está brincando?

Uma tentativa de resposta a essa questão seja o gato. De início o bicho de estimação, ele passa a ser odiado e cada vez mais hostilizado. Até que…ela o mata. Claro que ela se horroriza com o que fez e, num gesto humano (de volta ao humano?), ela enterra o gato (o sepulta?).

A importante conversa entre ela e o marido deixou claro que o contrato que fizeram não resultou em um bem emocional. Enquanto ele viaja, trabalha, produz, tem uma vida fora de casa, ela deixou de criar, ficou confinada à casa, ao cuidado do filho e do gato, numa vida mais “natural”, com afazeres maternos, uma mulher recuando de seu lugar na cultura para um lugar na aos moldes da natureza. 

O recurso do filme em compará-la e transformá-la num animal parece propor justamente isso, uma crítica ao lugar a que muitas mulheres são submetidas na construção da maternidade e do quão enlouquecedor pode ser esse papel. 

Na conversa com o marido ela pode enfim dizer que o acordo que fizeram não funciona mais. Ela reconhece que está confusa e perdida. Isso é importante, poder localizar onde está o problema, onde o conflito está instalado.

O uso da referência animal para expressar o que se passava com ela é genial, permite pensar que aquilo que é conflitivo e não se transforma em palavras, aparece na forma de fenômenos inconscientes, não reconhecíveis para o sujeito. A mãe, neste filme, expressa a agressividade resultante do conflito em atos e formas de expressão tomadas de empréstimo do mundo animal. Aliás, usamos os animais para expressar nossa condição: dizemos ‘olhos de lince’ para alguém que enxerga bem, forte como um touro, esperto como uma víbora, lento como uma tartaruga, temos fome de leão… A mãe, no filme, encontrou na cadela uma identificação possível para tornar pensável e aliviar a carga pulsional que a estava derrotando.

Para quem quiser aprofundar mais conceitualmente, deixo a sugestão de relacionar essa personagem e sua ‘transformação’ em cadela com os conceitos da Psicanálise, como sintoma, fantasma e identificação.

Nesse ponto da conversa com o marido, ela fala em separação. Claro, a situação que o formato do casamento criou para ela, é insuportável e a ideia de separação surge como algo libertador. A separação permitiu que ela pudesse realizar outras coisas, escapar da lógica antiga que destinava às mulheres um lugar de clausura. Muitas histórias de análise trazem sujeitos falando das mazelas sofridas na infância, uma infância marcada por uma mãe nervosa e infeliz, limitada e tendo que suportar o peso do exercício da maternidade e tudo o que vem junto nesse período. A hoje conhecida depressão pós-parto pode ser pensada e repensada aqui.

Canina é uma comédia capaz de garantir o Oscar de Amy Adams? — CRÍTICA

No final, o reconhecimento que a maternidade é de uma complexidade muito grande, um período de transformação, período em que a natureza se encontra de forma dramática com a cultura, produzindo tanta beleza e vida e ao mesmo tempo dúvidas, perdas, sofrimentos.

Após tudo isso, a mãe conseguiu voltar a ser mulher, o contato com as amigas passou a ser de conversas mais profundas e significativas a ponto de cada uma delas relatar alguma ‘maldade’ cometida no período da maternidade. Maldades essas que viram temas das telas que a mãe pintou. Ela voltou a dedicar-se à arte e fez uma exposição. Nesse momento, seu agora ex-marido divide os cuidados com o filho em outra casa. Distanciados, ela até pode agora sentir um pouco de saudade dele, não mais como o seu opressor.

No parque ela olha para os cachorros, seu olhar de despedida indica a superação de um momento difícil, já pode lembrar com distância de sua loucura, de seu refúgio na identificação canina, já pode reconciliar-se a maternidade que entrava em competição com a mulher, não precisa entrar em conflito com a antiga maternidade que tomava conta de todas as zonas internas de seu ser, ofuscando a mulher, a artista, a amiga e a boa mãe que poderia ser para seu filho. 

As últimas frases do filme são tão importantes que as reproduzo aqui:

Diz ela:

“Eu sempre achei que a maternidade fosse uma condição frágil, mas ela é algo muito mais primal e ativo do que isso. Provavelmente é a experiência mais violenta que um ser humano pode ter, exceto a morte em si. O primeiro ato de uma criança é um ato de violência contra a mulher que a criou. E, ainda assim, a mãe ama o filho com o amor mais poderoso que existe no universo. Essa coisa nos rasga de dentro para fora. Literalmente nos parte ao meio em um banho de sangue, fezes e urina ou é arrancado de nós com uma faca. Nossos órgãos são removidos, recolocados e costurados novamente. Então, não, maternidade não é só flores e talco de bebê, balinhas de menta e vestidinhos rendados. A maternidade é brutal pra caralho.”

Talvez você também possa gostar dessas colunas…

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *